Descartes deu o mote. A filosofia deste deste espaço é antes de mais dedicado ao sonho, às duvidas existênciais à escrita e ao prazer da leitura, um blog onde a actualidade não pode deixar de estar presente.



translator 翻訳 Переводчик

As origens do fascismo na Europa


(Artigo publicado por Vicenç Navarro no diário digital O PLURAL, 14 de Outubro de 2013 Tradução de Carlos Santos para esquerda.net)

Este artigo analisa as origens do nazismo na Europa, assinalando pontos semelhantes que se estão a dar agora neste continente. O artigo assinala que as políticas neoliberais são as responsáveis por este fenómeno. Por Vicenç Navarro.

“Hitler foi eleito em 1933. E o que caracterizou o período pré 1933 não foi uma elevada inflação, mas sim uma enorme depressão económica, acompanhada e causada, em parte, pelas enormes políticas de austeridade” - Foto de Desempregados no porto de Hamburgo (1931)

Um dos maiores mitos que se reproduz nos establishmentseconómicos e políticos europeus é que as políticas de austeridade promovidas na União Europeia pelo governo alemão são consequência do temor que este país, a Alemanha, tem ao perigo da inflação, pois assume-se (erroneamente) que foi a inflação que causou o surgimento do nazismo na Alemanha e a vitória de Hitler naquele país. Daí a necessidade de levar a cabo as políticas de austeridade (com os cortes da despesa pública, incluindo no social, e a baixa de salários que caracteriza tais políticas).
Esta explicação do que está a ocorrer na Europa alcançou a categoria de dogma, de maneira que quando se explica o porquê do Banco Central Europeu ter como objetivo principal (na realidade, o único) o controle da inflação, a resposta padrão é que esta foi uma condição posta pelo governo alemão e pelo seu Banco Central, o Bundesbank, para que se estabelecesse o Banco Central Europeu, e isso como resultado do temor do governo alemão a que a substituição do marco pelo euro pudesse fazer disparar a inflação.
Este mito, no entanto, é fácil de mostrar que não corresponde com o ocorrido na Alemanha. O historiador económico Frederick Taylor, num interessante artigo “The German trauma”, publicado em New Statesman (05.09.13), questiona esta interpretação, contribuindo com dados que assinalam o erro da dita suposição. Mostra, em primeiro lugar, que a inflação não estava limitada à Alemanha, pois outros países, como Áustria, Hungria, Rússia e Polónia, tinham tido também uma elevada inflação, sem que tivesse dado origem ao surgimento do nazismo. E noutros momentos, Grécia, Itália e França tinham tido também níveis de elevada inflação sem que aparecesse um Hitler na sua vida política. A inflação, pois, não foi a causa do nazismo.
Na realidade, se olharmos a evolução económica, relacionando-a com a política, vemos que Hitler foi eleito em 1933. E o que caracterizou o período pré 1933 não foi uma elevada inflação, mas sim uma enorme depressão económica, acompanhada e causada, em parte, pelas enormes políticas de austeridade que se estavam a impor e que criaram uma enorme destruição de postos de trabalho (seis milhões) e uma grande insatisfação e descontentamento popular com oestablishment político do país, algo semelhante ao que está a ocorrer agora na periferia da União Europeia. E nesta depressão, como acentuava Taylor, havia deflação, o contrário da inflação.
Esta enorme austeridade estava a ser imposta pelo establishment económico e financeiro alemão (que Taylor define como a upper class da Alemanha). Esta austeridade considerava-se necessária para pagar os enormes custos das reparações que os aliados tinham imposto à Alemanha perdedora da I Guerra Mundial (e cuja severidade tinha sido denunciada por Keynes no seu livro “The Economic Consequences of the Peace”, escrito em 1919). E também tinha por objetivo controlar o perigo de inflação, consequência da elevada dívida pública e o grande défice público (resultado do pagamento das reparações). Dita austeridade teve êxito na redução da inflação (redução que beneficiou a upper class), mas prejudicou imenso as classes populares. Daí surgiu o nazismo, baseado no descontentamento popular, e ajudado pelas profundas divisões das esquerdas.
É interessante assinalar as semelhanças com o período atual. Estamos a ver uma rejeição das classes populares para com esta Europa que não consideram, com razão, a sua Europa. E esta rejeição inclui os partidos governantes ou ex-governantes de esquerda, que contribuíram para esta austeridade. Daí o surgimento do fascismo de base popular ao longo da Europa, realidade que o establishment europeu (incluindo as suas esquerdas governantes) facilitou o surgimento, e que agora não entende. As lições dos anos trinta explicam que depois da II Guerra Mundial, os aliados atuaram de uma maneira diferente do que ocorreu depois da I Guerra Mundial, perdoando metade da dívida que a Alemanha tinha para com os aliados, facto a que a Alemanha atual, beneficiária daquela medida dos aliados, se opõe à aceitação para aqueles países, como os países periféricos, que adquiriram enormes dívidas com o Estado alemão e com os bancos alemães, resultado das políticas de austeridade que têm estado a impor. Esta é a situação que está a levar ao aparecimento do fascismo popular na Europa.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Contacto por correio electrónico

Antoniogallobar@sapo.pt