Descartes deu o mote. A filosofia deste deste espaço é antes de mais dedicado ao sonho, às duvidas existênciais à escrita e ao prazer da leitura, um blog onde a actualidade não pode deixar de estar presente.



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Deteve a marcha do carro, junto à berma da estrada, num local bem conhecido, a cerca de dois ou três quilómetros de casa, saiu fora para esticar as pernas, sabia que dali podia ter uma panorâmica total sobre todo o lugar. Deixou o carro e seguiu a pé cerca de cinquenta metros, através de um carreiro, antigamente percorrido por pastores e ovelhas, direitos a um dos muitos moinhos abandonados. Sentiu um calafrio quando avistou o pequeno ponto verde de árvores junto ao rio, ali estava ela a sua casa, construída num local soberbo, com tanto esforço, num dos extremos do povoado. Desde sempre sentiu que tinha sido feita num local perfeito, para viver em companhia dos seus. Era para ali que convergiam todas as suas atenções, neste momento. Lembrou-se agora que uns binóculos lhe fariam jeito, mas não os tinha, levantou a mão e colocou-a á altura da testa para conseguir ver melhor. Desde o tempo do seu namoro, que começou a gostar daquela terra, as pessoas ajudam a que se goste (ou não) de determinado lugar. Pode ser o mais bonito dos recantos, se não houver alguém ou uma recordação por mais pequena que seja, podemos até achar o local bonito, acabamos por não nos prendermos a ele. Mas se gostarmos muito de determinado lugar tudo faremos para o podermos partilhar com quem se ama, para que esse lugar passe a ter mais sentido. O nosso amor pelos lugares é efémero, pois tudo está em modificação permanente, e constante, podemos em determinado momento, gostar muito, mas se esse alguém for a referência ou a pessoa que guardamos no nosso intimo nos desiludir, pode muito bem ser motivo, para que se deixe de gostar!

Vilar de Moinhos é um desses locais que o toca profundamente, mas as memórias que o pobre homem sente, são tão dolorosas, doem-lhe tanto, que não é possível gostar mais. Viu o sol aproximar-se das copas das árvores dos montes vizinhos, não podia ficar ali eternamente, tinha que ir lá. Pegou num pequeno ramo seco de madeira do chão, e com ele veio distraídamente descendo o caminho arredando do caminho, algumas silvas que entretanto foram crescendo, devido ao facto de há muito não seu utilizado por ninguém. Há muitos anos atrás ele e Eugénia vinham às escondidas, trocar juras de amor, para aquele local calmo e tranquilo, e dali ficavam até à tardinha ficando a ver o sol a pôr-se. Sentia que até o cheiro das urzes, lhe faziam despertar os sentidos. Tantas recordações esquecidas começavam agora à sua memória adormecida, pelo afastamento.

Entrou novamente no carro e avançou para os últimos quilómetros da sua viagem. Devagar, observando a paisagem e as pessoas, entretidas nas suas vidas percorreu o centro da vila. O rio continuava a deslizar suavemente, naquele local o rio faz uma pequena baía, e por isso quase pára. As margens orladas por choupos onde de verão os namorados vêm passar algum tempo, sentados nos bancos de pedra, abrigados pela sua sombra e pela discrição e recato do lugar, tal como ele, continuam a fazer juras de amor. Todo aquele lugar lhe trazia à memória imagens há muito esquecidas, mas que o marcaram profundamente e por isso permanecem bem vivas. O resto estava tudo igual ou quase, à primeira vista. Como que imutável, uma ou outra casa nova, de resto pouco ou nada tinha sido modificado.

Recordando cada detalhe, parou depois de passar pela Igreja matriz. Sentiu vontade de ir lá, mas não se podia arriscar poderia ser reconhecido pelo velho pároco, que tinha olhos de lince ibérico, e tudo via e sabia. Não podia nem devia expor-se a tal, pois o padre casou-o e baptizou-lhe os dois filhos. Olhou em redor nada mais o prendeu, arrancou devagar, dirigiu-se para os lados da sua casa, que com tanto suor a construiu, pedra por pedra. Quando poderia gozar as coisas porque tanto lutou, algo correu mal e não se gozou de nada, sente que a vida, lhe foi ingrata pelo menos neste capítulo.




Retalhos da sua antiga vida, vêm agora abruptamente á sua memória, fazendo-o refrear os seus impulsos de ir de peito aberto. Sabia que depois daquela curva que surgia á sua frente estaria a sua casa, ou antes a casa onde mora a sua mulher. Seu coração parecia um cavalo louco, tal a ansiedade misturada com algum justificado receio. E se alguém descobrisse quem ele era? Avançou decidido. Não via ninguém na rua apenas ao longe vislumbrava vultos a trabalharem nos campos. Animado por isso teve vontade de ir a pé. Pensou melhor e desistiu da ideia, o receio de ser reconhecido era forte. Ficou parado a olhar para o fundo da estrada, bastava atravessar a ponte nova e dali já se podia ver a casa. Ia poder finalmente concretizar o seu velho e secreto sonho, ir à terra, anónimo. Desde sempre mantinha este secreto desejo, desde os tempos da prisão, a curiosidade de ver como é que se tinham dado sem ele.

O mais certo era acabar por ver o que não queria. Isso que interessa agora? Ver a mulher vivendo alegremente com um qualquer! Estava preparado para tudo, as suas feridas encontravam-se já bem cicatrizadas, não fora a insistência do padre Mário, acabaria por se deixar ficar definitivamente por Cascais. Tantos anos de sofrimento tinham feito dele um ser humano diferente, mas também se tornou inseguro, tinha que superar isso, havia-se preparado, nada o poderia magoar.

Bem vistas as circunstancias, faria bem voltar? Não, não se trata de voltar!.. Trata-se antes de fazer um ajuste de contas consigo mesmo, ver se agiu bem ou se agiu mal, se foi justo ou injusto. Podia ter regressado há sete anos atrás, e agora será que não será tarde demais? A sensação de ter sido injusto em alguma decisão que tenha tomado, sente que não é fácil lidar com isso, sempre tentou ser ponderado e equilibrado nas suas atitudes. A firmeza do seu caracter, impulsionava-o para a frente, nada havia a temer, ele é que foi abandonado por eles e não o contrario. Voltaram-lhe as costas porque lhes era mais fácil viver sem o peso morto ou a memória de que havia alguém do seu sangue preso. Isso foi o que os envergonhou. Apenas mero pretexto, nada mais.

O seu futuro estava novamente nas suas mãos, podia simplesmente tocar à campainha e dizer estou aqui, ou então voltar as costas e dizer adeus para sempre, dizendo bem alto, passem todos bem, que eu também vou fazer por isso.

Arrancou sem pressa, passou a ponte, observando de relance, quase sem olhar, ao passar à sua porta, olhou de lado, pelo canto do olho, ver se via alguma coisa. Não viu ninguém... Ali estava a casa onde viveu durante anos o seu único e grande amor, era inacreditável pensar no que lhe sucedeu, era como se uma tempestade se tivesse abatido, sobre um pacato ser humano, que entretido na sua vida, sobre ele um diluvio se abateu, e este para longe foi levado na enxurrada. Foi exactamente o que lhe aconteceu.
Texto retirado do meu Livro
Encontro com a vida

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